Quando começaram a falar em reforma ortográfica, eu pensei que um dos meus sonhos de colégio se realizaria. Na 7ª série eu bolei uma mudança na Língua Portuguesa Nossa de Cada Dia que alterava uma série de coisas. Minha motivação maior, veio do fato de que eu morava no interior e percebia que muitas pessoas erravam a escrita das palavras, mas que no fundo aqueles erros tinham certa lógica.
Por exemplo, quando alguém escrevia “vosê”, eu entendia a linha de raciocínio da pessoa. Ora, o som de "vosê" ficava o mesmo e o “S” até me parecia mais adequado do que o “C” na palavra “você”. Mas regras são regras e tinham que ser seguidas.
Mas aí é que está: as regras da Língua Portuguesa têm muitas exceções. E como diria o filósofo Derek Reard*, se uma regra tem muitas exceções, a regra não foi bem elaborada e todos vão se achar no direito de criar novas exceções.
Veja algumas das mudanças que propus, lembrando que sempre priorizei a fonética:
- O “C” antes de “e” e “i” teria som de “ke” e “ki”, como com as outras vogais. Portanto, “você” teria realmente que ser “vosê”.
- Não existiria mais a letra “Q”, que por sinal fica inútil, se observada a regra acima. “Quem” ficaria “cem” e o “100” ficaria “sem”.
- O “G” antes de “e” e “i” teria som de “gue” e “gui”, como com as outras vogais. Logo, “gueto” seria “geto”, e “gente” seria “jente".
- Antes do “e” e “i”, o “J” faria as funções do “G” e o “S” faria as funções do “C”, sem problemas.
- O “e” com som de “i”, seria “i” mesmo. Como em “Si vosê gostar di mim, eu digo ce lhi amo!”
- O “Ch” seria abolido e tudo seria “X”.
- K, Y e W ficariam para as outras línguas mesmo. Letras inúteis e desnecessárias.
- O "S" só funcionaria nas palavras onde tivesse som de "sssssss" de abrir cerveja, como em "saco" ou "serpente". Para o "S" com som de "zzzzzz" de zumbido, seria usado o bom e velho "Z". E o "ss", morreria.
- As mudanças fonéticas seriam apenas duas: Eliminar o "h" invisível das pronúncias do "T" e do "D", onde "morte" não seria pronunciada como "morthe", e o "-te" seria o mesmo de "Tereza".
E outras mais... Fica esquisito, né? Mas se tivesse começado assim, eu tenho certeza que o aprendizado das crianças seria mais rápido, o índice de analfabetismo seria bem menor que o de hoje, e mais pessoas teriam prazer em escrever, sem o receio de errar. Além disso, menos pessoas sentiriam raiva e prazer ao corrigir alguém, por erros aparentemente idiotas que, no fundo, fazem sentido.
*Eu invento nomes de filósofos pra dar aquele TCHAN nas minhas frases.


